É hora de seguir em frente, e dizem que quando você segue, alguma coisa acaba ficando para trás. É trágico, mas neste caso, alguma coisa é você. (Letícia Magalhães)
― Vai embora.
― Não.
― Não?
― Não.
― Qual é o seu problema?
― Você.
― Não vai levar isto a sério?
― Não enquanto você estiver com esse cabelo desarrumado. Já te falei o quanto fica irresistível assim?
― Acabei de acordar, só me deixa em paz.
― Não.
― Estou somente pedindo para sair do quarto. Qual é a tua dificuldade?
― Você.
― Olha pra mim.
― O que foi?
― Isto não é uma brincadeira.
― Eu sei.
― Não, não sabe.
― E por que?
― Se soubesse, já estaria longe daqui.
― O que vai acontecer se eu não for embora?
― Eu vou gritar.
― E depois eu sou o imaturo?
― Estou falando sério. Eu vou gritar.
― Estamos sozinhos aqui, ninguém vai te ouvir. E aliás, até agora não entendi porque está emburrada comigo. É por causa de ontem?
― Idiota.
― Teimosa.
― Frouxo.
― O que disse?
― Disse pra ir embora.
― Eu ouvi o que disse.
― Portanto, é um idiota em me pedir pra repetir.
― Deixa de ser chata.
― Não sei porque tá aqui com a chata.
― Chata não é sinônimo de feia.
― Some. Agora.
― Me obrigue.
― Qual é o seu problema? Eu só quero tirar esse pijama!
― Pode tirar. Eu realmente prefiro você sem ele.
― Vai. Embora. Agora. Eu preciso trocar de roupa, posso?
― Fique à vontade.
― Então saia.
― Eu? Qual o problema do frouxo ver você trocando de roupa?
― Tá admitindo que é frouxo?
― Sim, e também estou admitindo que posso te ver trocando de roupa sem problema algum. Vou ficar sentado aqui na cama, quietinho. Prometo.
― Vai embora, por favor.
― Deixa de ser fresca. Estou me sentindo ofendido por isso.
― Por que?
― Olha pra mim.
― O que foi?
― Eu tenho cara de alguém que iria te agarrar ou aproveitar do seu momento de nudez?
― Tem, pior que tem sim.
― É, tem razão. Mas tanto faz, eu juro que não vou olhar.
― Deixa de ser ridículo. Eu não vou trocar de roupa aqui com você.
― Lamentável. Só que eu não saio daqui.
― Então eu saio. Simples.
― Tudo bem.
― Deixa de ser criança e me solta.
― Não.
― Isso é assédio.
― Eu usaria outras palavras, mas tudo bem se prefere denominar assim.
― Eu tenho o direito de te denunciar, sabia? Invasão de domicílio e assédio.
― Interessante. Mas acho que posso lidar com isso.
― Eu estou falando sério.
― Eu também.
― Para você o que é sério aqui?
― Você.
― Chega, eu não estou pedindo muito. Pode continuar sendo infantil e tarado… Eu não me importo. Somente quero que me solte.
― Você usa palavras muito pesadas, sabia?
― E você é um babaca, mas não preciso enfatizar isso, porque já é bem nítido para qualquer um.
― Não entendi nada. Parei de processar tudo depois que falou “babaca”. Seus lábios fizeram um movimento irresistível, acho que deveria falar isso mais vezes.
― Pare com isto!
― Eu não consigo. É inevitável.
― O que?
― Te provocar.
― Não seja ridículo. É bem simples: Ou saia daqui, ou solte-me para que eu saia.
― Escolho a terceira opção.
― Não tem terceira.
― Não?
― Não.
― Tem sim.
― E por acaso posso saber qual é?
― Eu não saio daqui e você também não. Deitamos na cama, abraçados, e sem maldade alguma. E então…
― Não.
― Mas eu nem terminei de falar!
― E nem precisa.
― Por que?
― A terceira opção é totalmente inválida.
― E se eu te disser que aluguei uma comédia romântica para assistirmos juntos?
― Você alugou?
― Então… Não.
― Idiota.
― Eu só estava tentando fazer com que você aceitasse a minha proposta.
― Não conseguiu. Bem feito.
― Valeu a pena, consegui outra coisa.
― O que?
― Vi você feliz comigo por alguns segundos.
― Tá tentando ser romântico pra me fazer mudar de ideia?
― Consegui?
― Não. Você não tem vocação para ser príncipe encantado e tudo mais. Tá mais para o vilão.
― Eu sei. Se eu te soltar você vai fugir?
― Você vai me soltar?
― É só uma hipótese.
― Tenta a sorte então.
― Pronto.
― Finalmente…
― Posso me sentar do seu lado?
― Já sentou.
― Ainda quer que eu vá?
― Sim. Eu ainda preciso trocar de roupa.
― Eu não vou embora.
― Eu vou.
― Você não quer ir.
― Não quero mesmo. Mas já que você não vai, sou obrigada a ir.
― Não precisa ir, caso não queira.
― Acontece que você me deixou sem opção.
― Isto não é verdade. A terceira opção ainda tá de pé.
― Não. Sem chance.
― Deixa de ser egoísta.
― Egoísta?
― É. Tem espaço pra dois na cama e você tá recusando me acolher.
― Cala a boca.
― Não.
― Então vai embora.
― Não é isso que você quer.
(Silêncio)
― Para de brincar.
― Não tô brincando.
― Você não falou nada sério até agora.
― Mentira.
― O que foi sério então?
― A parte do “eu não vou embora”.
― E só?
― A terceira opção também.
― Você é um babaca.
― Quase esqueci. Quando eu disse que você falando babaca é irresistível eu estava falando sério também.
― Isso te faz ainda pior, seu idiota.
― Seu.
― Meu o quê?
― Seu. Seu. Só seu.
Outro dia tentei chorar. Outro dia tentei abraçar meu travesseiro. Não acontece nada. Eu não consigo sofrer porque sofrer seria menos do que isso que sinto. Tentei falar. Convidei uma amiga pra jantar e tentei falar. Fiquei rouca, enjoada, até que a voz foi embora. Tentei aceitar o abraço da minha amiga, mas minha mão não conseguiu tocar nas costas dela. Não consigo ficar triste porque ficar triste é menos do que eu estou. Não consigo aceitar nenhum tipo de amor porque nenhum tipo de amor me parece do tamanho do buraco que eu me tornei.
Sempre me gabei de nunca ter sido usuária de nenhuma droga e nem ao mesmo ter experimentado cigarro ou ter dado trabalho com bebedeiras. Sempre fui saudável além da conta. Até que me caiu a ficha de que ele era pior do que cocaína.